domingo, novembro 20, 2005

ARTIGO DE MERI DAMACENO


A poesiarte apresenta: Meri Damaceno. Escritora e memorialista cabo-friense.

Vejamos uma das crônicas resgatada no livro Cabofrianças, que fala a respeito da Festa do Divino em Cabo Frio-RJ:



"Tambor de Matias"

Nesta festa religiosa havia um pedidor de esmola que saía, por todos os cantos do município, arrecadando donativos para a realização da festa, uma das mais tradicionais que Cabo Frio já teve nos seus áureos tempos. Esse pedidor percorria a cidade, durante dois meses, coletando prendas para os leilões e rifas. Sempre que alguém contribuía, o pedidor de esmola oferecia, em agradecimento, um pedaço de fita da bandeira do Divino Espírito Santo acompanhando a gentileza com versos improvisados ao som das batidas compassadas de um tambor. Se alguém não pudesse contribuir, mesmo assim os versos eram puxados na hora.
No início deste século, um tirador de esmola saiu pelo município pedindo donativos e foi parar na Massambaba, nas salinas de propriedade de Érico Coelho, onde o responsável pela salina era Narciso Lopes. Ele pediu a seu Narciso um donativo qualquer para a festa do Divino, mas este informou que a safra de sal estava muito fraca e que não poderia colaborar. O Chefe da folia, assim mesmo, tirou os versos em agradecimento pela atenção:
"Cada vez entendo menos
o negócio do Narciso;
quando penso que dá lucro,
está dando prejuízo"
Retirou-se do local e seguiu adiante com seu tambor, até a divisa de Praia Seca com Araruama, onde havia uma fazenda. Ao encontrar o proprietário, explicou que estava pedindo esmola para a festa do Divino.
Prontamente o fazendeiro autorizou-o a pegar um garrote com um dos empregados da fazenda. E ele, muito feliz pela doação, iniciou o seu verso:
"Salve! A Pomba Divina ..."
Estava se referindo à Pomba do Divino Espírito Santo. Não terminou a segunda linha do verso pois, imediatamente, começou a apanhar do fazendeiro sem entender o motivo e, no meio da confusão, o seu tambor foi voar longe, furado. Só mais tarde, em meio ao bate boca, é que ficou sabendo que a esposa do fazendeiro se chamava Vina. Saiu dali debaixo de um sol escaldante e voltou a Cabo Frio sem nenhum donativo e com o tambor furado.
Ao se aproximar das dunas de Arraial do Cabo, lembrou-se que lá havia o senhor Matias Neves que possuía um tambor que era usado em várias festas da região, principalmente nas de São Pedro e do Divino. Aproveitando que já estava a meio caminho, foi até a casa de Matias Neves, Chegando lá com seu tambor furado, contou o que havia acontecido e perguntou se ele poderia lhe emprestar o tambor para tirar esmola. O senhor Matias então disse:
- De tanto emprestar o meu tambor, o couro arrebentou e, com a sobra, fiz um rabicho para o meu burro.
- Infelizmente, meu tambor está sem couro.
O pedidor de esmola, ao olhar para o quintal da casa e ver o burro com o couro preso debaixo do rabo, imediatamente tirou esses versos:
"Foste tambor de São Pedro,
em muitas festa tocaste;
hoje, no cu deste burro,
veja a que ponto chegaste."
Voltou cabisbaixo para Cabo Frio, sem nada conseguir: apenas algumas escoriações e um tambor furado.

(Meri Damaceno - memorialista cabo-friense)


Festa do Divino em Cabo Frio-RJ anos 40

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